agosto 09, 2017

Montes

"A minha flor é efêmera", pensou o principezinho, "e só tem quatro espinhos para se defender do mundo inteiro. E eu deixei-a lá sozinha!"

Resolvi voltar a escrever. Escrever mesmo o que der na telha. Porque um dia eu ainda vou compilar tudo isso aqui e, de algum modo, as coisas farão sentido. Têm que fazer.
Lamento não ter um conteúdo diferenciado dos últimos anos. A melancolia continua a me inspirar as palavras que, não sendo as melhores dos dicionários, são ainda as melhores que eu tenho. Se eu fosse feliz, não escreveria.
Desta vez, especificamente, a consciência do tempo e o amargor que a acompanha são meus conflitos. Perdi a doçura em minha última crise existencial. E como se deu? Foi numa trágica quebra de aliança há dois ou três verões, quando uma faísca de maldade vinda não sei de onde invadiu um relacionamento e me destroçou o coração. A sequência de fatos é bem recorrente: uma palavra torpe aqui, um olhar de desprezo ali, uma ofensa travestida de brincadeira, uma oportunidade e pronto. Golpeia-se um coração amigo, abre-se uma ferida que sangrará até a morte. Em puro instinto de defesa, toda a confiança se esvai e, com ela, a alegria e a leveza da inocência. Não há beleza ou graça em um coração traumatizado. Fosse possível retratá-lo e veria-se um garoto maltrapilho, magrelo, fragilíssimo que exibe ameaçadoramente os dentes para quem quer que ouse se aproximar. É esta a deprimente imagem de um coração que se machucou.
Um desgosto desses afeta o prazer na existência. De que modo? É que o coração machucado expulsa todo mundo, e a solidão entristece. Adicione-se a isto a efemeridade da vida, da qual se toma consciência quando se cresce, e o transtorno está feito. Tudo parece sombrio. Irreal. Enlouquecedor. Há um único desejo pulsante, o de fugir da realidade. Seja por meio do sono, da arte, da morte ou de outro. Vive-se num silêncio que ensurdece. E a impossibilidade deliberativa de olhar para fora de tais questões é como um cativeiro terrível.
Doloroso. Mas ainda não caí no desespero dos céticos que, certamente, serviria-me de gatilho. Ainda há alguma esperança além dos montes. Continuo me perguntando se é dali que virá o meu socorro.